Como lidar com uma sociedade que insiste em dar fama para as pessoas erradas

A fama nas redes sociais nem sempre representa mérito ou reputação; entenda como a atenção pode transformar pessoas em referências

Como lidar com uma sociedade que insiste em dar fama para as pessoas erradas
Por isso, talvez a pergunta mais importante das redes sociais hoje não seja por que tanta gente ficou famosa, mas quem estamos escolhendo transformar em referência. Foto: Banco de Imagens

Estamos criando uma geração que aprende a admirar quem conquista atenção, e não quem merece respeito.

Uma sociedade nunca revela seus valores apenas pelos discursos que faz. Ela revela seus valores pelas pessoas que decide colocar no palco.

Por isso, talvez a pergunta mais importante das redes sociais hoje não seja por que tanta gente ficou famosa, mas quem estamos escolhendo transformar em referência.

Você abre as redes sociais, vê alguém crescer rapidamente e pensa: “O que exatamente essa pessoa fez para merecer tanta influência?”

Não porque ela seja engraçada. Não porque seja inteligente. Nem porque tenha construído algo extraordinário. Mas porque, muitas vezes, ela parece representar exatamente o oposto dos valores que dizemos admirar.

Pessoas que transformaram vulgaridade em personalidade passam a falar sobre elegância. Quem conquistou atenção explorando escândalos começa a vender autoridade. Quem fez da própria incoerência um espetáculo passa a ensinar coerência. E aquilo que começou como entretenimento passa, pouco a pouco, a ocupar o lugar de referência.

O problema nunca foi existirem pessoas medíocres, vazias ou incoerentes. Elas sempre existiram. O problema começa quando uma sociedade decide recompensá-las com aquilo que existe de mais disputado hoje: atenção.

Atenção não é neutra. Cada visualização comunica. Cada comentário amplia. Cada compartilhamento distribui. Até a indignação pode funcionar como publicidade gratuita. A economia da atenção não separa admiração de desprezo. Ela reconhece movimento.

Na comunicação, existe um dos gatilhos mentais mais poderosos da persuasão: a familiaridade. A psicologia chama esse fenômeno de efeito da mera exposição. Os estudos clássicos de Robert Zajonc mostraram que a repetição pode tornar nossa avaliação sobre algo mais favorável, mesmo sem novas informações.

É assim que alguém deixa de ser apenas conhecido e começa a parecer importante. Não porque demonstrou competência, construiu repertório ou provou ter caráter, mas porque apareceu vezes suficientes. Somada a seguidores, contratos e convites, essa familiaridade cria uma aparência de legitimidade.

Se tanta gente acompanha, pensamos, algo relevante deve existir ali.

Nem sempre existe.

Estamos confundindo familiaridade com credibilidade, visibilidade com autoridade, alcance com influência e fama com mérito.

A aprendizagem social, estudada por Albert Bandura, explica outra parte do fenômeno: aprendemos observando quais comportamentos são recompensados. Se a vulgaridade gera alcance, produz-se mais vulgaridade. Se o escândalo gera dinheiro, cria-se outro escândalo. Se a incoerência produz fama, ela vira estratégia.

Depois de conquistar atenção dessa forma, algumas pessoas tentam convertê-la em autoridade. Mudam a estética, alteram o vocabulário, apagam rastros e passam a vender valores que nunca sustentaram.

É uma espécie de lavagem reputacional.

Pessoas podem mudar. Mas evolução exige verdade: admitir contradições e sustentar novos comportamentos. Mudar o discurso sem reconhecer aquilo que construiu a fama não é necessariamente transformação. Às vezes, é apenas reposicionamento comercial.

Uma biografia nova não apaga uma vida antiga. Coerência não significa nunca ter errado. Significa não fingir que o erro nunca existiu apenas porque deixou de combinar com o público que você deseja conquistar.

É aqui que entra uma distinção importante para quem trabalha com comunicação: fama, influência, autoridade e reputação não são sinônimos.

Fama é ser conhecido. Influência é conseguir interferir nas escolhas e nos comportamentos de outras pessoas. Autoridade é ser reconhecido por uma competência. Reputação é a percepção acumulada sobre quem você é, construída pela repetição das suas escolhas ao longo do tempo.

Alguém pode ter fama sem autoridade, influência sem repertório e alcance sem reputação.

Durante algum tempo, os números podem esconder essa diferença. Mas visibilidade não substitui substância. Ela apenas consegue, por algum tempo, convencer muita gente de que a substância está ali.

A dor não está apenas em ver alguém que você não admira recebendo reconhecimento. Está em começar a questionar se os seus próprios valores ainda têm espaço. Você estuda, constrói repertório, tenta agir com coerência, pensa antes de falar e se preocupa com o impacto daquilo que comunica. Enquanto isso, vê alguém avançar rapidamente fazendo exatamente aquilo que você jamais aceitaria fazer.

Então surge uma dúvida silenciosa: “Será que, para crescer, eu também preciso me tornar mais rasa, vulgar, barulhenta ou incoerente?”

Essa talvez seja a consequência mais cruel de dar fama às pessoas erradas: fazer quem possui conteúdo duvidar do próprio valor.

Mas profundidade não é desculpa para uma comunicação ruim. Ter repertório não elimina a necessidade de estratégia. Ser coerente não dispensa posicionamento. Competência precisa ser comunicada, repertório precisa ser traduzido e autoridade precisa ser construída.

Conteúdo sem estratégia pode virar invisibilidade. Estratégia sem conteúdo vira manipulação.

Como lidar, então, com uma sociedade que insiste em dar fama para as pessoas erradas?

Primeiro, pare de financiar com a sua atenção aquilo que você afirma desprezar. Nem todo absurdo precisa da sua resposta. Algumas pessoas permanecem relevantes porque uma multidão revoltada garante que elas nunca desapareçam.

Segundo, use a sua atenção com estratégia. Compartilhe pessoas competentes, comente em conteúdos que acrescentam e recomende quem possui repertório. Fazer silêncio diante do que admiramos e barulho diante do que desprezamos ensina o contrário dos valores que defendemos.

Terceiro, não entregue autoridade automaticamente a quem conquistou fama. Alguém pode ser interessante como entretenimento e irrelevante como referência moral, intelectual ou profissional.

E quem possui competência, caráter e repertório precisa ocupar os espaços de comunicação. Saber comunicar não é uma concessão à superficialidade. É estratégia de ocupação. Quando pessoas sérias se recusam a aprender a comunicar, os espaços são ocupados por quem compreendeu melhor como conquistar atenção.

Toda vez que transformamos alguém em referência, comunicamos às próximas gerações: “Vale a pena ser assim”.

Por isso, não basta reclamar que as pessoas erradas ficaram famosas. É preciso parar de financiar a fama delas e aprender a comunicar melhor aquilo que realmente merece ocupar o palco.

Porque, no fim, toda sociedade acaba se parecendo com as pessoas que escolhe aplaudir.

Micarla Lins

Fundadora da Lins & Co, empresa de comunicação e posicionamento estratégico. Prepara executivos, lideranças e políticos para comunicar com autoridade, influência e impacto